Nunca fui fã de histórias de vampiros. Por incrível que pareça, assisti quase todas as temporadas de Buffy porque a esposa adorava a série. Dos clássicos em preto e branco, como Nosferatu (1922) ou Drácula (1931) até chegarmos em Keanu Reeves no remake de Drácula (1992) e Brad Pitt dando aquela Entrevista Com O Vampiro (1994)... convenhamos... filmes de vampiros tornaram-se repetitivos e sem a menor graça. Wesley Snipes como Blade (1998, 2002 e 2004) não seria metade do que é sem os efeitos especiais. A guerra entre Lycans e Vampiros de Underworld (2003) jamais renderia tanto se não fosse a Kate Beckinsale vestida em latex o filme inteiro. A Revolta dos Lycans (2009) simplesmente perdeu o fôlego e ficou sem novidades. E finalmente, a última moda dos aborrecentes, Crepúsculo (2008) parece mais um romance água com açucar.Já tinha perdido as esperanças. Era um legado perdido. Até que um colega de trabalho me falou a respeito de True Blood (2008).
Baseado nos contos de Charlaine Harris -- The Southern Vampire Mysteries -- a história de True Blood começa alguns anos depois que pesquisadores japoneses conseguiram criar o sangue sintético. Com a nova descoberta vendida em garrafas sob a marca TruBlood, vampiros não precisam mais viver escondidos, caçando seres humanos para sobreviver. Saíram do armário e assumiram sua cidadania na sociedade. São representados em partidos políticos e representam uma minoria discriminada da população, da mesma forma que acontece com homossexuais e travestis hoje em dia.
Fãs do X-Men (2000, 2003 e 2006) devem reconhecer facilmente a Anna Paquin no papel de Sookie Stackhouse, a garçonete que consegue ler os pensamentos das pessoas. Em meio a cenas quase explícitas de sexo, mistérios e assassinatos envolvem os personagens numa trama muito bem elaborada. Vampiros são mostrados não como uma raça de demônios desmiolados e pervertidos que vivem pelo prazer de sugar o sangue de suas vítimas, mas como pessoas comuns que vivem em condições biológicas fora do comum -- não envelhecem, mas precisam de sangue humano para sustento. Depois de transformados em vampiros, persistem nos mesmo hábitos que tinham quando ainda eram humanos. Se eram propensos a violência, acabam se pervetendo de vez frente à imortalidade. Se eram pessoas de bem, continuam lutando contra seus instintos e buscando entender sua nova situação de vida, tornando-se pessoas melhores. Assim como homossexuais, sofrem com fortes preconceitos e fanáticos religiosos.
A sociedade de vampiros mostra-se extremamente bem organizada, com hierarquias bem definidas firmadas ao longo de vários séculos na calada da noite. Um aspecto interessante desta série é mostrar o contexto moral dessa sociedade noturna. Devidamente nutrido e zelado, um vampiro vive para sempre. Quais os valores morais de uma criatura dessas comparados aos de um ser humano comum? Como se constrói uma família dentro desse contexto? Como pode um ser humano simples sustentar um verdadeiro relacionamento amoroso e fiel com um vampiro? O que é importante na vida de uma pessoa que não tem perspectiva de morrer tão cedo? Parecem perguntas pouco pertinentes, mas algumas questões filosóficas acabam tornando-se evidentes enquanto pessoas morrem misteriosamente ao longo da primeira temporada.
É uma chance de mergulhar no sotaque caipira do Texas (EUA), muito bem soletrado pelos atores! Apesar dos efeitos especiais modestos, são bem trabalhados colocados na dose certa. A história não apresenta cortes entre um episódio e outro -- ou seja, o episódio seguinte começa exatamente no momento onde o anterior parou, fazendo da série um grande longa metragem. E não se assuste... como qualquer história de vampiros, também tem direito a outros personagens místicos -- demônios, lobisomens e demais criaturas são apresentadas lentamente ao longo dos episódios. Sem falar na trilha sonora da abertura da séria, excelente!Enquanto Lost (2004) não volta do recreio e enquanto Heroes (2006) continua despencando sua audiência, True Blood promete preencher esse vazio com alguma coisa interessante para passar o tempo.
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