Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Computadores e Pirataria - O Maior Abacaxi da História da Humanidade

Os dias da pirataria estão contados. Mas não fique desanimado, pois num futuro não muito distante ainda poderemos baixar filmes, fotos e músicas num ritmo ainda mais alucinante... a diferença é que "copiar" não será mais chamado de "pirataria". As regras do jogo serão diferentes e as leis serão adaptadas para um novo estilo cultural; uma geração de jovens que não conhecem os limites da Internet. Essas palavras parecem um sonho, uma utopia. Mas na opinião de alguém que vive e trabalha no mundo dos computadores e da Internet, acredite, estamos a poucos passos dessa realidade.

A História da Máquina que Copiava
Quando os computadores modernos foram inventados, na década de 1940, sua principal finalidade era acelerar operações e cálculos matemáticos. O exército era o maior interessado, pois quem fizer as contas mais rápido pode tomar decisões mais rápidas. Dentre todos os engenheiros envolvidos nesse tipo de pesquisa, NENHUM deles tinha o menor interesse em proteger direitos autorais ou garantir o controle de conteúdos artísticos. Nenhum exército precisa disso para ganhar uma guerra. E por isso o computador nasceu aberto. Dentre todas as suas peças (CPU, memória, barramento, armazenamento, controladora de periféricos, etc.) , NENHUMA foi concebida pensando-se na queda de vendas dos DVDs ou CDs de músicas mundo afora. Toda sua arquitetura é inerentemente aberta. Isso quer dizer que, em seu nível mais básico de funcionamento, não existem peças ou parafusos feitos para proteger a informação.

Não vou entrar no mérito de criar uma aula de história, mas o importante é lembrar que o computador, conforme foi concebido e continua sendo até hoje, não passa de uma GRANDE máquina de fazer cópias. Além de fazer cálculos simples (somar, subtrair, multiplicar e dividir), todo o seu funcionamento é baseado na cópia de informações. Para iniciar um programa, este é inteiramente copiado do armazenamento (disco) para a memória. Depois, cada operação realizada pelo programa é copiada da memória para a CPU para ser executada. Os valores de cada operação podem ser copiados do disco para a memória ou podem ser copiados do barramento dos periféricos (teclado, mouse, etc.) para a memória. Depois disso, esses valores ainda devem ser copiados da memória para a CPU onde serão utilizados pelo programa. O resultado de cada operação não pode ficar na CPU, logo são copiados novamente para a memória de onde podem ser copiados para o disco, evitando que sejam perdidos depois que o computador for desligado.

Isso é assim para TODOS os computadores de qualquer marca, modelo ou arquitetura. Mesmo hoje, com todo esse catatau de conectividade da Internet e redes wireless, nada é diferente. A CPU continua processando informações que foram copiadas da memória, mas hoje essas informações podem ser copiadas para sua placa de rede. A placa de rede copia a informação na forma de sinais elétricos que são enviados pelo cabo até serem capturados pelo computador mais próximo. Neste outro computador, outra placa de rede remonta a cópia da informação para que possa ser copiada para a memória e novamente copiada para a CPU para ser processada. Sempre foi assim, e sempre será. Na perspectiva do hardware (ou seja, do equipamento físico), em nenhum momento nessa montanha de cópias é feito qualquer tipo de proteção do conteúdo. A informação é livre, aberta, disponível para qualquer dispositivo que tenha capacidade de observar um sinal elétrico e propagá-lo adiante. Neste nível mais básico, nenhum computador sabe o que é "proteger um conteúdo". Não existe proteção. Não existe senha. Nada tem dono e tudo é de todo mundo. Tudo é aberto, livre e desprotegido, pois é preciso manter as informações consistentes entre os diversos dispositivos.

Então por que eu tenho senha para entrar no meu e-mail?
Em cima dessa arquitetura inerentemente aberta foram construídos todos os serviços e utilidades digitais que conhecemos hoje. Todas as comodidades alcançadas com o computador são naturalmente desprotegidas. A única forma de proteger as informações que entram no computador é criptografar. Em outras palavras, é preciso embaralhar as informações antes de serem enviadas a outro computador. Depois que o outro computador recebe, é preciso desembaralhar tudo de novo para voltar o conteúdo à sua forma original. Um detalhe MUITO IMPORTANTE, mas que parece passar despercebido por quase TODA a socidade é que esse trabalho de criptografar e proteger o conteúdo não é feito pelos dispositivos físicos do computador, mas por um programa. São algoritmos de criptografia especializados em misturar e embaralhar as informações para que fiquem ilegíveis. É um segredo (igual à sua senha) que fica bem guardado até que outro computador, que também conhece esse segredo, possa desfazer essa mistura e acessar o conteúdo. Infelizmente não passa de mais um programa e aí é que mora o verdadeiro problema.

Pense bem a respeito... se você manda uma e-mail criptografado para seu amigo, quer dizer que antes de mandar a mensagem você embaralhou muito bem as letras para que ninguém no meio do caminho pudesse ler o conteúdo. Afinal de contas, haverão centenas de cópias dessa mensagem ao longo dos vários computadores que ficam entre você e seu amigo. Quando seu amigo receber essa mensagem o computador dele deve desfazer essa mistura das letras para poder ler o conteúdo. Tudo isso é feito pelos programas que ficam instalados nos dois computadores. Não existe equipamento físico com essa finalidade. Esse exemplo demonstra claramente o funcionamento básico de toda proteção de conteúdo atualmente em uso.

Para proteger um arquivo ZIP, você usa uma senha. Para proteger uma música, o iTunes usa o DRM, que mistura o conteúdos das músicas antes de enviá-las ao seu computador. Isso garante (ou melhor dizendo, tenta garantir) que apenas o seu computador e o seu iPod possam ter acesso ao conteúdo. Para proteger um e-mail, você usa um certificado -- que no fundo não passa de uma senha muito grande. Em todas essas ocasiões, é preciso fazer uma criptografia e depois desfazer tudo de novo para ler seu e-mail ou ouvir sua música favorita. Esse é o calcanhar de Aquiles da nossa tecnologia. Tudo aquilo que é feito no computador, é feito por algum programa... e pode ser desfeito com a mesma facilidade. Basta conhecer o "segredo" usado para misturar as letras. Uma vez aberto, o conteúdo permanece nesse meio digital extremamente volátil e volta a ser intensamente copiado de um lugar para outro sem o menor tipo de controle.

Copiar é Preciso
Atualmente, é tão fácil copiar um conteúdo de um lugar para outro que nem mesmo sua mãe consegue evitar. Eu digitei meu trabalho para a faculdade e preciso levar até o professor para corrigir. Para isso, preciso fazer uma cópia do trabalho para dentro do pendrive. Ao chegar na faculdade, preciso fazer uma outra cópia do pendrive para dentro do computador que tenha acesso à uma impressora. Ao imprimir, outra cópia é enviada do computador para a impressora. A impressora, por sua vez, faz uma cópia do seu arquivo em formato de "tinta no papel". Depois disso, para mostar que sou um bom amigo, mando uma cópia desse trabalho para o e-mail de meus colegas -- só no ato de enviar o e-mail já são criadas dezenas de cópias que ficam armazenadas em diversos servidores da internet.

Até mesmo o seu velho amigo browser -- aquele que você usa para navegar na Internet (Firefox, Internet Explorer, Opera, Safari, Chrome) -- vive fazendo cópias o tempo todo. Toda vez que você abre uma página na Internet, todo o seu conteúdo (incluindo texto, imagens, fotos, vídeos) é copiado para uma pasta no seu computador para somente depois ser mostrado na sua tela. Quando você escuta uma rádio pela Internet, uma cópia da música também é criada no seu computador para depois ser reproduzida. Essas cópias ficam armazenadas no seu computador por um bom período de tempo e mutia gente nem sabe disso.

Copiar é como respirar. Não se pode viver -- e muito menos ganhar dinheiro -- em nosso mundo tecnológico sem fazer centenas, ou até milhares, de cópias de uma coisa só. É assim que os computadores funcionam e para mudar isso seria preciso jogar todos os computadores do mundo no lixo (isso mesmo, TODOS) e inventar tudo de novo de uma forma bem diferente.

Cucamber! Cucamber! Cucamber!
Quando a indústria de entretenimento -- com toda sua economia multi-bilionária de música e filmes -- iniciou investimentos nessa nova tecnologia, parece que ninguém parou para pensar nas conseqüências dessa arquitetura. Afinal de contas, nenhum jornal, estúdio, agência de publicidade ou distribuidora tinha engenheiros da computação prontos para colocar isso em evidência. Comprar computadores parecia a melhor idéia do mundo. Pode-se criar mais rápido, produzir mais rápido, distribuir mais rápido e vender mais rápido. "Nossos lucros vão subir até as núvens", devem ter pensado! Mal se deram conta de que estavam investindo quase todo seu futuro numa tecnologia que faz pouco caso dos conceitos mais importantes dessa indústria, como a propriedade intelectual e os direitos autorais. Na minha opinião, esse pode ser considerado o maior pepino já comprado em toda a história da humanidade, pois nenhuma dessas empresas (Universal, Warner Bros, Paramount, Dreamworks, ABC, NBC, Fox, CNN, e todas as outras) tinham a menor idéia do abacaxi que teriam que descascar. Hoje nenhuma delas vive sem computadores.

E agora, essas empresas começam a perceber o tamanho desse abacaxi. Numa tentativa desesperada de manter seu modelo econômico sem precisar mudar seus conceitos, muitas apostaram em iniciativas que prometem "acabar com a pirataria" -- assim surgiu a RIAA e outras empreitadas similares. Em vista de tanta gente fazendo cópias e cópias de suas produções milhonárias, viram uma oportunidade de recuperar o prejuízo: processar qualquer alma viva que tenha compartilhado alguma coisa na internet. Já se foram mais de 30 mil processos na justiça contra pessoas físicas (entre adolescentes, professores, avós e donas de casa) que rechearam a Internet com notícias cabeludas. Sites famosos que apenas "catalogam" conteúdo que outras pessoas fornecem -- como Mininova.org, RapidShare ou MegaUpload -- estão constantemente na mira dos advogados mais bem pagos da Califórnia. Recentemente, ThePirateBay.org foi desmantelado e acabou sendo vendido para uma empresa de jogos.

O Futuro é Aberto
Enquanto isso, a tecnologia continua "bombando". Inovações e novos serviços surgem num passo muito mais rápido que os demorados "bimestres financeiros" das grandes empresas. É possível ver novas idéias e novas tendências aparecendo toda semana. Tudo isso tirando proveito do acesso direto à informação e ao conteúdo, que aliás continua se tornando cada vez mais aberto e acessível. Quanto mais uma empresa tenta fechar seu conteúdo, mais ela se afunda na própria lama.

Recentemente, encontrei notícias de que esse futuro está próximo. Numa discussão pública sobre como se proteger dessas empresas que correm atrás de tudo mundo, um usuário (M4st3rM4x1997) identificou-se como sendo alguém que já trabalhou 5 anos para a MediaSentry, uma das empresas que trabalham contra a pirataria nos EUA. Ele acabou respondendo várias perguntas de diversos usuários sobre as atividades dessas empresas. Em uma de suas confissões, ele desabafa:

Não sei dizer quais serão seus próximos passos, pois fui desligado da empresa ano passado, junto com praticamente metada dos funcionários da MediaSentry. Posso dizer que até então, quase todas as atividades da empresa já haviam sido encerradas, pois, honestamente falando, a maioria de nossos clientes já não está mais interessada em correr atrás de redes piratas e destruí-las. O foco parece estar se voltando para o monitoramento das redes e das tendências dos downloads. Isso os ajuda a perceber quais os verdadeiros interesses dos clientes em seus produtos. Assim, podem tomar decisões mais precisas de como aumentar a sua renda. É aí que está o dinheiro, na Inteligência de Negócios (BI).

Ao longo dos anos, coletamos uma infinidade de informações e descobrimos que éramos capazes de prever com precisão as bilheterias dos cinemas e as vendas de DVD em uma determinada cidade com base na análise do tráfego P2P dessa região. As famosas "Cartas de Aviso" continuarão sendo enviadas aos provedores de Internet e usuários infratores, mas elas não têm a menor autoridade jurídica. As campanhas de ações judiciais provavelmente já terminaram, pois são extremamente caras. A RIAA gasta milhões de dólares coletando informações de usuários infratores e outros milhões tentando correr atrás dos direitos autorais judicialmente.
E isso é apenas o começo de uma história que já vem se arrastando ao longo de toda a minha geração, que nasceu sem Internet. Acredite nas palavras de um profissional que tira seu sustento entendendo computadores e desenvolvendo soluções para empresas de todo tipo. Na era da informática, onde o conteúdo é digital, correr atrás dos piratas é correr atrás do prejuízo. É correr atrás de bilhões de pessoas que já vivem no futuro. E a realidade do futuro é outra. Copiar não é apenas preciso, mas também inevitável e imprescindível. Os conceitos de direitos autorais e propriedade intelectual já sofrem pelo fato de estarem defasados e incompatíveis com a realidade. Enquanto continuarem presos na idéia de que é preciso pagar para ouvir uma música, os únicos que continuarão ganhando (MUITO) dinheiro serão apenas os advogados.

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