Ela só tem 5 meses de vida. O controle da televisão tem a mesma utilidade que o pé: enfiar na boca. É aquela fase da vida, parece o chupa-chupa da estrela. Mesmo assim, as imagens coloridas da televisão chamam a atenção e promovem um passa tempo que as vezes o papai e a mamãe precisam para descançar.
Alguns meses antes do nascimento da Leticia, havíamos assinado a Sky -- uma decisão que valeu não apenas para o futuro de nossa filha, mas também para nosso sossego. Não aguentávamos mais ver a cara do Faustão, Ratinho, Gugu, Luciano Hulk, Xuxa, Fátima Bernardes... Novela, então, nem se fala! Quando se chega na casa dos 30 anos de idade, o desespero aperta. Uma troca de olhares com a esposa foi quase que suficiente para assinar um contrato de 18 meses com a Sky: "Já que temos condições, vamos realmente deixar a Leticia crescer vendo essa merda de TV aberta"?
Um ano depois, é fácil perceber: é um sacrifício que valeu a pena. Não sou psicólogo (na verdade, Analista de Sistemas), mas mesmo antes de ter filhos, já conversei com a minha esposa sobre como pretendemos educar nossos filhos. Que livros eles poderão ler? Que músicas eles devem ouvir? Quanta TV eles poderão assistir? E tão importante quanto, que conteúdo eles verão na TV? Não adianta proibir, faço parte de uma família mundana, é claro que assistimos TV. E muito! Resta apenas decidir o canal. Enquanto os filhos não têm capacidade de escolher por si mesmos, somos nós que escolhemos por eles. Agora que temos nossa primeira filha, é hora de colocar essa idéia em prática.
Enquanto ela não tiver a capacidade de segurar o controle remoto e escolher um canal sozinha -- I'm sorry, baby -- Discovery Kids é o único canal que ela vai assistir. Não tem argumento, mesmo porque ela nem consegue falar enquanto a baba escorre da boca dela. Em meio a uma centena de canais, pelo menos seis são voltados ao público infantil. Dentro dessa meia dúzia, a Discovery Kids ganhou o troféu aqui em casa.
Muito infantil?
À primeira vista, parece ser um canal infantil demais para ser levado a sério. Mas ao longo do tempo é possível perceber que existe uma enorme diferença entre a Discovery Kids e os outros canais infantís (Disney, Nickelodeon, entre outros). Como qualquer canal do pacote, a programação é bem diversificada e o conteúdo é descentemente moderno. Desenhos animados com tecnologia digital enchem a tela com cores, texturas e animações diferentes. A primeira característica que chama a atenção é a AUSÊNCIA COMPLETA DA VIOLÊNCIA. Perceba como é fácil encontrar desenhos que começam com uma história simples e acabam em mentiras, fraudes, socos, pontapés, explosões e todo tipo de briga por motivos fúteis. Foi assim que percebi o quanto estava acostumado a assistir atos de violência.
Quando a violência desaparece, você nota a diferença.
A grade de programação é visivelmente escolhida a dedo. Sem muita supresa, boa parte do conteúdo é importado de países mais conservadores, como a Inglaterra ou Canadá. Nos horários nobres, é possível encontrar programas educativos como As Aventuras de Bindi. Junto com a família, Bindi percorre diversos lugares do mundo mostrando animais de toda espécie, explicando suas características num linguajar claro e simples; não são raras as ocasiões em que chega a ser mais interessante e informativo que o próprio Globo Repórter.
O simpático Mister Maker estimula a criatividade artística da criançada com trabalhos manuais que usam objetos do dia-a-dia. Com um pouco de tinta, cola e papéis coloridos, ele mostra técnicas de arte e fotografia que podem ser facilmente usadas por crianças que estejam na idade certa. Além das atividades práticas, quadros específicos, como a dança das formas e as crianças coloridas, enfatizam conceitos básicos e elementos artísticos.
Com os Mecanimais, um grupo de cinco superamigos reforça constantemente a idéia de que nada é impossível para quem usa a cabeça e trabalha em equipe. No início de cada episódio, o Corujão envia os Mecanimais para uma nova missão, onde devem trabalhar juntos para solucionar um problema. Cada Mecanimal possui suas próprias habilidades e nenhum deles consegue resolver o problema fazendo tudo sozinho. A baixa complexidade dos problemas pode fazer com que você não preste atenção, passando despercebido pela maior lição que essas histórinhas podem passar ao seu filho: a aplicação prática do instrumento científico; primeiro observa-se para depois tirar conclusões baseadas em fatos. Na mesma linha de pensamento, segue O Peixonauta, um desenho de autoria brasileira com o mesmo teor científico.
A Garota Supersábia jamais derrota um criminoso apelando para violência bruta. Ao invés disso, usa seu extenso vocabulário para esclarecer as idéias e colocar as coisas no lugar. Outra coisa que não vemos, são os irmãos Charlie e Lola quebrando-se em tapas, disputando a atenção de pais e colegas. Preferem conversar, enquanto Charlie demonstra um inigualável exemplo de paciência, carinho e dedicação ao crescimento e desenvolvimento da irmã mais nova.
Enquanto seu filho cresce passando pelo desenvolvimento dos sentidos e dos objetos, o divertido Pocoyo acompanha essa etapa da vida. Brincando, conhecendo o mundo e fortalecendo amizades num cenário inteiramente branco, devidamente colocado para não desviar a atenção da criança do conteúdo educativo.
Entre essas e outras, sou capaz de deixar minha filha assistindo esse canal sem a menor das preocupcações. O conteúdo não apela e é sempre voltado ao tema educativo. Evita a polêmica, conflitos e discussões que não levam em nada. Não oferece aquela visão do mundo "separatista", onde o bem luta contra as forças do mal usando bombas, armas e a manipulação de fatos e pessoas. Não existem propagandas da Honda, Hugo Boss, McDonald's ou Coca-Cola. Pelo contrário, o mascote da Discovery Kids, o cãozinho Doki, repete o dia inteiro músicas que lembram a criança que quantos mais amigos na vida, melhor. Que praticar esportes faz bem a saúde. Que reciclar e preservar a natureza é um dever de todos. É um bombardeio constante de melodias cativantes reforçando incansavelmente que "somos seis bilhões, em seis continentes. Tão parecidos, tão diferentes. E que você, ele, ela e eu temos o mesmo coração".
Ela vai assistir alguma coisa além disso? Por enquanto, não! Quando ela tiver idade suficiente, vai conseguir apertar as teclas do controle e escolher um canal sozinha. Quando esse dia chegar, ela pode escolher o que quiser assistir -- lembrando sempre que a Globo, Record e SBT estarão permanentemente trancadas com senha. Com tanta coisa pra ver numa TV por assinatura, Faustão, Xuxa, Didi e Ratinho jamais terão o menor espaço no cotidiano da minha filha.
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