Status, por favor.
Posted on November 11th, 2008 in Português, Que Sarro!) by JulioHM |
História traduzida e adaptada do original: Status, Please, de Alex Papadimoulis.
“Me dê um status, diabos!” gritou Murray, um velho gerente de projetos que muitos acreditavam já estaria aposentado aos 59 anos de idade. Para não ser totalmente injusto, o índice de performance dele nunca abaixou ao longo das décadas que esteve na Bell Labs. Alguns até dizem que começou a usar mais a cabeça do que o gênio forte em seus últimos anos. “Que droga”, disse Murray gritanto com Tom Limoncelli, um dos desenvolvedores do time. “Não tenho o dia todo! Me dê um status!”
”Ok, ok”, respondeu Tom nervosamente revirando os papéis da mesa, “estamos… ahm, em 30% da AMQ, 60% da AMA-2 e… uhm… 100% da DBD”. Murray fechou a cara e murmurou alguma coisa ininteligível ao sair do cubículo. Era o seu jeito de dizer “obrigado”.
Quando os projetos andavam conforme o planejado, Murray andava sempre com uma cara de inconformado, porém indiferente. Mas as coisas começaram a piorar. Começou a soltar o leão de chácara, fazia escândalos e muito barulho. Não perdia a chance de humilhar publicamente um pobre coitado pelo simples fato de que conhecia alguém que conhecia outra pessoa que atrasou o projeto. E, em toda reunião, havia sempre alguém atrasando o projeto.
Tom deu uma resposta rápida e isso lhe salvou de um esporro. O pobre coitado ao lado dele não teve a mesma sorte. “E você”, apontando o dedo para o desenvolvedor junior do próximo cubículo. “Você não me deu um status! Eu pedi um status ontem, cadê o status? Preciso de um status agora!”.
O jovem tremeu na base. “Bom… ainda… não estamos totalmente… nos 30% da AMA-3”.
O rosto de Murray ficou vermelho. Fechou os olhos e os punhos, como se fosse dar uma porrada, mas estava só acalmando os nervos. Respirou fundo e, com uma voz forçasamente calma, disse “Este status é inaceitável. Isso vai atrasar o projeto”.
”Sei disso”, disse tentando melhorar a situação, “faremos horas extras, viremos trabalhar no fim de –“
Murray interrompeu o jovem de forma abrupta. “Você deveria ter vindo no FINAL DE SEMANA PASSADO! EU PRECISAVA DE UM STATUS MELHOR HOJE”! A frase terminou com a mão dele em cima da mesa do desenvolvedor.
Enquanto Murray gritava com o pobre colega, Tom percebeu que Chris, do cubículo em frente, mordia os lábios. Como se estivesse com vontade de ir ao banheiro.
“Esse status é inútil agora”, continuava Murray, como se tentasse fazer o pobre subordinado chorar. “Eu precisava de um status desse três dias atrás! De que serve esse status agora? Não consigo voltar no tempo, me planejar melhor para conseguir um status melhor hoje!”
A essas alturas, alguém de outro cubículo não aguentou e acabou soltando um vestígio de risada presa – daquelas que a gente tenta segurar e sai pelo nariz. Murray estava muito focado em seu esporro para prestar atenção no que acontecia ao seu redor. Quanto Tom olhou de volta em direção ao Chris, esse já estava se contorcendo ao máximo para segurar a gargalhada que tentava abafar dentro de si mesmo. Era óbvio que todos ao redor estavam rindo por dentro.
Meia hora mais tarde, depois que Murray já havia destruído a moral do funcionário junior, Tom resolveu aproximar-se do cubículo de Chris e perguntar que história era essa. Havia alguma piada de mal gosto no setor e com certa relutância, Chris acabou abrindo o jogo.
“Tá bom”, explicou ele. “Sabe que o Murray fica o tempo todo pedindo o status de tudo, certo? Então, quando ele falar a palavra ‘status’ mentalmente substitua por…”
Chris chegou bem perto da orelha e sussurou a palavra mágica.
“Baralho??” perguntou Tom, espantado. Mas depois ele entendeu a piada. “Ahh! Você quer dizer ‘caralh…’!!!” Não dava pra falar em voz alta. É um local de trabalho.
A princípio, Tom não deu muita bola para a grande revelação. Mas a semana seguinte foi uma tortura sem fim, e não no sentido que ele tanto temia. As reuniões já eram chatas o suficientes e era sempre o mesmo blah-blah-blah de sempre. Agora, a tortura era segurar a risada no meio da reunião.
Quando chegou novamente a hora de escrachar o colega junior, Tom simplesmente não aguentou mais. “Se não tiver status melhor agora, eu juro… vou meter a boca!”
Foi impossível. Não havia mordida forte o suficiente no lábio que segurasse a risada de Tom. Imediatamente, Murray virou-se para qual era a piada. “Qual é a graça?”, falava gritando. “Você ainda está em 30%. Seu status continua horrível!”
Daí em diante, não tinha Cristo que o salvasse. Risadinhas viraram gargalhadas. Murray ficou ainda mais chateado e continuava reclamando – agora para todos ouvirem – como o status de todo mundo no setor era ruim. Não levou muito tempo para a piada chegar a todos os ouvidos. Eventualmente, até outras equipes de outros setores ficaram sabendo.
Ainda hoje, mesmo depois de Murray ter se aposentado a muitos anos, Tom ainda evita falar a palavra “status” nas reuniões.
